Estamos iniciando o tempo Quaresmal, tempo de graça, de conversão e de esperança na dinâmica do esperançar que não se cansa. A liturgia da Quaresma nos põe em movimento de abertura e de acolhida no caminho crucial de Jesus. No dinamismo do Ano Jubilar e da caminhada de uma Igreja chamada a sair, a Igreja no Brasil lança a Campanha da Fraternidade 2025 com o tema: “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). A Criação de Deus se apresenta jubilosa na manhã contemplativa do próprio Deus.
Diante dos problemas climáticos, da ausência de paz na terra e para a humanidade, se faz urgente viver a proposta quaresmal através do jejum e da oração, em um processo de metanoia da mente e do coração. Isso requer compromisso solidário com a Casa Comum, no respeito aos pobres tragados em sua dignidade.
Ainda na sabedoria quaresmal, celebramos o aniversário da partida de Bárbara Maix para junto de Deus (17 de março de 1873). Bárbara, mulher ancorada na Cruz de Jesus, em contínua catequese aos pés Daquele que doou a Vida para que a Criação divina tivesse vida nova e em plenitude. Por isso, pôde dizer: “Alegremo-nos quando temos uma cruz, como se alegrou Santa Helena quando encontrou a Santa Cruz de Cristo” (1869). Celebrar o dia 17 de março nos faz adentrar na origem da Congregação, que teve tão grande mulher a disposição da força do Espírito Santo, deixando-se acariciar pela brisa suave da sabedoria e da esperança. O período quaresmal na vida de Bárbara percorria o itinerário da mente e do coração, perpassando suas entranhas e lhe conduzindo a um enamoramento sempre crescente do Mistério da Trindade, através da entrega coerente e inegociável ao Cristo Senhor. Iluminada pela Ruah Divina era tremendamente corajosa em afirmar: “soframos com alegria, constância e ação de graças, e Deus fará tudo o mais…” (1871). Sua bravura não tem limites, anda sempre descentrada de si mesma, para centrar-se no Cristo, o Filho de Deus.
A cruz ergue-se ao coração trinitário de Deus. Bárbara tem consciência de que a cruz é uma escola onde se aprende a amar: “Toda sabedoria aprende-se na escola da Santa Cruz, em Nazaré, em Belém, em toda a Paixão de Jesus…”. Bárbara percebe que na cruz está o conteúdo catequético relacionado ao compromisso missionário do Filho de Deus que se fez carne, a sabedoria encarnada. Como dizia Gregório de Nissa:
“A cruz revela a divindade do Filho, revela o seu ser Filho. A cruz, o evento histórico da cruz inserido na unidade da morte e ressurreição, mostra na história através da economia, a mesma teologia, enquanto é revelação da imanência trinitária, da filiação divina de Cristo”.
Em Bárbara, essa intuição brota da experiência de Deus vivenciada na oração, na contemplação da Palavra e dos acontecimentos. O poder que é Deus, a esperança que supera as fronteiras da morte, marca o coração de Bárbara como uma flecha afiada. Sua compreensão da cruz abrange a totalidade da vida humana, o que entra em consonância com a reflexão teológica referente ao querigma primitivo, que afirma o chamamento de Jesus aos cristãos para segui-lo tomando a própria cruz.
Nos escritos de Bárbara, a cruz é a chave hermenêutica que abre novas dimensões e corrige nossa compreensão de Deus. Um Deus que, ao mesmo tempo em que é Onipotente e Poderoso, se rebaixa. Isso retrata um entendimento bíblico de Deus. Bárbara tem consciência da kénosis cristológica: “humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl 2, 8). Como uma estrela brilhante sua compreensão da cruz apontava caminhos para a Congregação. Todavia, não se pode contemplar a visão da cruz nos escritos de Bárbara numa dimensão sacrificialista, assim como a morte de Jesus não pode ser vista de forma teologicamente sacrificialista, mas como expressão máxima do amor de Deus”. Deus enviou o seu Filho único ao mundo para que vivamos por Ele” (1Jo 4, 9b).
Bárbara viveu a epctasis, no dinamismo amoroso do Espírito Santo, no diálogo com Deus, na escuta do silêncio fecundante e no discernimento compassivo, banhada pela misericórdia divina. Essa mulher que consumiu sua vida em favor do próximo com “alegria no sofrer e bravura no lutar” (cf. pg. 42), que mostrou sua feminilidade, mística, amor às irmãs e a toda a humanidade, merece ser lembrada e colocada como protótipo de testemunho de que outro jeito de viver as relações comunitárias é possível. Sua humildade e mística são evidentes, tanto que se pode comprovar quando ela mesma diz que “a Santíssima Trindade iniciou a Obra da Fundação e há de completá-la” (cf. nota 123). Isso é testemunho para a humanidade de hoje onde tudo se fundamenta na segurança do próprio “eu”. Tinha razão Bárbara quando dizia que a obra iniciada pela Trindade também deveria ser custodiada por Ela. E, assim, podemos comprovar sua obra viva e eficaz no seio da Igreja e da sociedade, através da vida que circula na missão de suas seguidoras e discípulas de Jesus Cristo, a Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
Irmã Maria Freire da Silva
Diretora Geral Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria.
Bacharel e mestra pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo e doutora em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, Itália.
Consideração bibliográfica
SILVA, FREIRE. Mária. TRINDADE: Um Dinamismo Valsante, ed. Palavra&prece, São Paulo, 2012.